Os cenários para os produtores de cana
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Não há mais dúvidas de que a substituição dos combustíveis fósseis é uma necessidade premente para o planeta, mas o fato de o barril estar a poucos passos dos US$ 100 é o argumento que mais comove os países. Foi o que pudemos perceber durante a 18ª reunião da WABCG (Associação Mundial dos Produtores de Cana e Beterraba Açucareira, da sigla em inglês), realizada em Londres, no último dia 26.
Mais do que nos anos anteriores, representantes dos países se mostraram mais entusiasmados não apenas com a idéia da produção do etanol, mas também com a bioeletricidade. A WABCG reúne representantes dos produtores independentes de 35 países, incluindo o Brasil, e seu objetivo é discutir as dificuldades comuns, propor soluções e permitir o intercâmbio de informações e experiências.
A Orplana, que representa cerca de 13 mil fornecedores independentes brasileiros, filiou-se à WABCG em 2004 e já no ano seguinte organizou o encontro da entidade em Ribeirão Preto. Nas reuniões da associação, o Brasil é sempre observado com atenção pelos demais participantes. Na reunião da última segunda-feira, o presidente da Datagro, Plínio Nastari, abordou os programas de co-geração em desenvolvimento e o presidente da Orplana, Ismael Perina Júnior, apresentou o sistema Consecana, que serve de parâmetro para o pagamento da matéria-prima pelas indústrias.
O encontro foi dividido em cinco sessões, que tiveram como temáticas o preço do açúcar, o aumento nos preços dos grãos, a importância da biotecnologia, a produção de bioeletricidade e as vantagens para os produtores de matéria-prima. Uma das preocupações dos produtores é em relação ao preço do açúcar. Na análise da ISO (Organização Internacional do Açúcar, da sigla em inglês), é difícil esperar por uma subida nos preços nos próximos dozes meses, já que o mercado deverá seguir com superávit (diferença entre oferta e demanda) de 7 milhões de toneladas.
Segundo a ISO, a produção de açúcar mundial para a safra 2007/08 está estimada em 170 milhões de toneladas, enquanto o consumo em 163 milhões. Já em relação à subida no preço dos grãos como reflexo da valorização dos biocombustíveis, o economista Gareth Forber, da Trading LMC International, acredita que, a longo prazo, os grãos e o açúcar terão os preços formados a partir da sua equivalência em energia.
Na África do Sul, os produtores têm capacidade de investir na co-geração de energia a partir do bagaço da cana, mas apontam a necessidade de uma legislação que fomente um mercado remunerador de energia renovável. Segundo eles, lá a indústria considera que o bagaço pertence a ela, mas há a possibilidade, por meio de uma ‘joint venture’ entre produtores de matéria-prima e industriais, de modificação da fórmula de cálculo dos preços de forma que se contemple o valor adicional do bagaço.
Também no Brasil, as discussões em torno da revisão do Consecana, prevista para ocorrer a cada cinco anos, já foram iniciadas e também devem incluir a remuneração do bagaço. Os fornecedores independentes brasileiros também esperam por uma justa participação sobre os resíduos da cana, que podem virar energia elétrica e, daqui a alguns anos, etanol celulósico. Pelo que observamos no encontro, os cenários para os produtores de matéria-prima são semelhantes em todo o mundo e o Brasil é uma vitrine.
Forçados pelo preço do petróleo, os países começam a se manifestar e a se organizar para substituir os combustíveis fósseis pelos renováveis. E o setor brasileiro, especialmente os produtores de cana organizados em cooperativas e associações, tem grandes contribuições a dar. Pelos caminhos que a maioria dos países começa a passar, nós, brasileiro, já passamos.
*presidente da Canaoeste
(Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo)
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