Os cenários de cana, açúcar e etanol

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05/02/2018

Por: Fernanda Clariano

 “Os novos cenários dos mercados de cana, açúcar e etanol no Brasil e no mundo" foi o tema do encontro realizado em dezembro na cidade de Guariba, SP, que reuniu renomados especialistas do setor sucroenergético como o consultor da Canaplan, Nilceu Piffer Cardozo, o diretor de Controladoria e Relação com Usinas da Copersucar, Tomas Caetano Manzano, e o diretor da Bioagência, Tarcilo Ricardo Rodrigues. Na ocasião, foram apresentados para um grupo de produtores, representantes de associações e usinas, os dados da safra 2017/18 e também as projeções para a safra 2018/19, com informações fundamentais para a tomada de decisão para os próximos anos.

Produção de cana safra 2017/18 e perspectivas para 2018/19

A safra canavieira termina em março de 2018 e a próxima safra se inicia em abril. De acordo com Cardozo, a safra atual deve ser finalizada com um volume ao redor de 590 milhões de toneladas, que pode aumentar um pouco em função daquilo que for colhido, mas já pertencente a safra seguinte. Atualmente algumas unidades iniciam a safra em março e consomem parte da safra posterior. Dessa forma, quanto maior for este consumo, menor será a próxima safra. Diante dessa possibilidade de envelhecimento dos canaviais, algo que é indiscutível na redução dos investimentos, a estimativa da Canaplan é que a próxima safra deva, na melhor das hipóteses, apresentar um volume em torno de 585 milhões de toneladas. Esse valor pode ser variado em função de alguma questão climática, chuvas além do esperado, podendo até aumentar esse volume, mas não de forma drástica.

“A perspectiva é que tenhamos uma oferta muito parecida a que aconteceu no ano de 2017. O grande fator que pode variar é a questão da qualidade, que foi extraordinária, a safra 2017/18 foi a melhor dos últimos tempos. Se mantida e alcançarmos valores próximos ao que houve nesta, deverá ser uma safra de grande oferta de açúcar, isso dentro da usina. O que será feito desse açúcar, se será etanol ou açúcar, é outra questão, o mercado e o valor de mercado é quem vão ditar o rumo da safra 2018/19”, analisou Cardozo.

Mercado de açúcar

Segundo Manzano, ao olharmos o histórico de preços do açúcar podemos observar bastante volatilidade nos últimos anos. O encerramento da safra 2017/18 aconteceu dentro do estimado, com uma tendência, talvez na safra que vem, um pouco menor, e perspectivas de estabilidade de preços em relação ao que se observa atualmente.

O balanço mundial de açúcar, sobre a situação dos principais países produtores como a China, a Índia, a Tailândia e também do Brasil foram apresentados pelo executivo da Copersucar. “A expectativa hoje, salvo algum evento climático mais relevante, é que tenha um cenário de superávit de açúcar de excesso de estoque, o que deve pressionar um pouco os preços em curto prazo”, observou Manzano. 

Índia

A produção total de açúcar já totaliza 3,9 milhões de toneladas, 40% acima do mesmo período de 2016; 443 usinas em operação em novembro vs 393 no mesmo período em 2016;
MA 1,5 MMt, 59% acima YoY (Year over Year)
UP 1,4 MMt, 60% acima YoY (Year over Year)

Tailândia

Após quebra de safra por seca, forte recuperação em 2017;
2015-16: 94 milhões de t
2016-17: 93 milhões de t
2017-18: 115 milhões de t
Além disso, houve aumento de área de 12,4% e o início de moagem em dezembro/17  começou com ATR alto e clima normal em novembro, assim como o esperado também para o mês de dezembro.

Centro-Sul do Brasil

Após dois anos de mix voltado para o açúcar, a safra 2018/19 deve priorizar a produção de etanol, além da expectativa de redução de mix para o açúcar em função de preços mais atrativos para o etanol na safra 2018/19. O Centro-Sul pode retirar de 2 a 4 milhões de toneladas de oferta de açúcar; apenas 25% da safra precificada e flexibilidade para produção.

Mercado sucroenergético - safra 2018/19

O clima desfavorável de janeiro a outubro de 2017 com chuvas abaixo da média em grande parte do Centro-Sul causará impacto na produtividade da cana soca nos primeiros meses de 2018/19 e atraso no plantio. O aumento de renovação do canavial em 2017, porém ainda abaixo dos níveis desejados leva à uma expectativa de mais um ano de envelhecimento do canavial. A probabilidade do La Niña no mês de  dezembro de 2017 poderá comprometer o desenvolvimento de cana.

Visão preliminar: menor disponibilidade de cana para 2018/19 no Centro-Sul

Como já mencionado, a mudança de mix de açúcar para etanol influenciado por paridades de preços mais atrativos ao etanol poderá levar o Centro-Sul a retirar a produção de 2 a 4 milhões de toneladas de açúcar na safra 2018/19. Além disso, prevê-se o aumento do Ciclo Otto no mercado doméstico potencializado pela expectativa de retomada econômica em 2018 e, o aumento do PIS/COFINS na gasolina poderá elevar a competitividade do etanol hidratado frente à gasolina e provável volatilidade cambial em função das eleições deste ano.

O diretor de Controladoria e Relação com Usinas da Copersucar ainda reforçou em suas projeções que a redução da produção de açúcar no Brasil na próxima safra terá baixo impacto na expectativa de superávit mundial; menor crescimento da demanda mundial de açúcar impulsionada por iniciativas de redução de consumo; expectativa de menor disponibilidade de cana na safra 2018/19 no Centro-Sul e migração de mix para etanol e cenário construtivo para o etanol no Brasil na safra 2018/19.

Mercado de etanol

A pressão para fazer caixa por parte das usinas fez com que o mercado de biocombustíveis não começasse o ano de forma positiva, segundo a visão do diretor da Bioagência. Ele explicou que os preços de gasolina ainda não haviam entrado na nova política da Petrobras, mas quando a companhia começou a aplicar os preços internacionais e houve um rearranjo tributário, que aumentou a competitividade do etanol na bomba, o biocombustível foi beneficiado. “O cenário mudou muito após estas mudanças. O etanol ganhou competitividade frente à gasolina e os preços se recuperaram, o que deverá se refletir em uma entressafra de bons preços para as usinas”, disse o executivo que ainda destacou: “A boa demanda e os preços do petróleo em patamares elevados deverá manter os preços da gasolina elevados nesta entressafra e no início da próxima safra, quando devemos ter uma safra bastante alcooleira. O crescimento da demanda favorecerá a mudança do mix e também trará um impacto positivo nas cotações de açúcar da próxima safra”, projetou Rodrigues.

 

Fonte: Revista Canavieiros

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Os cenários de cana, açúcar e etanol

05/02/2018

Por: Fernanda Clariano

 “Os novos cenários dos mercados de cana, açúcar e etanol no Brasil e no mundo" foi o tema do encontro realizado em dezembro na cidade de Guariba, SP, que reuniu renomados especialistas do setor sucroenergético como o consultor da Canaplan, Nilceu Piffer Cardozo, o diretor de Controladoria e Relação com Usinas da Copersucar, Tomas Caetano Manzano, e o diretor da Bioagência, Tarcilo Ricardo Rodrigues. Na ocasião, foram apresentados para um grupo de produtores, representantes de associações e usinas, os dados da safra 2017/18 e também as projeções para a safra 2018/19, com informações fundamentais para a tomada de decisão para os próximos anos.

Produção de cana safra 2017/18 e perspectivas para 2018/19

A safra canavieira termina em março de 2018 e a próxima safra se inicia em abril. De acordo com Cardozo, a safra atual deve ser finalizada com um volume ao redor de 590 milhões de toneladas, que pode aumentar um pouco em função daquilo que for colhido, mas já pertencente a safra seguinte. Atualmente algumas unidades iniciam a safra em março e consomem parte da safra posterior. Dessa forma, quanto maior for este consumo, menor será a próxima safra. Diante dessa possibilidade de envelhecimento dos canaviais, algo que é indiscutível na redução dos investimentos, a estimativa da Canaplan é que a próxima safra deva, na melhor das hipóteses, apresentar um volume em torno de 585 milhões de toneladas. Esse valor pode ser variado em função de alguma questão climática, chuvas além do esperado, podendo até aumentar esse volume, mas não de forma drástica.

“A perspectiva é que tenhamos uma oferta muito parecida a que aconteceu no ano de 2017. O grande fator que pode variar é a questão da qualidade, que foi extraordinária, a safra 2017/18 foi a melhor dos últimos tempos. Se mantida e alcançarmos valores próximos ao que houve nesta, deverá ser uma safra de grande oferta de açúcar, isso dentro da usina. O que será feito desse açúcar, se será etanol ou açúcar, é outra questão, o mercado e o valor de mercado é quem vão ditar o rumo da safra 2018/19”, analisou Cardozo.

Mercado de açúcar

Segundo Manzano, ao olharmos o histórico de preços do açúcar podemos observar bastante volatilidade nos últimos anos. O encerramento da safra 2017/18 aconteceu dentro do estimado, com uma tendência, talvez na safra que vem, um pouco menor, e perspectivas de estabilidade de preços em relação ao que se observa atualmente.

O balanço mundial de açúcar, sobre a situação dos principais países produtores como a China, a Índia, a Tailândia e também do Brasil foram apresentados pelo executivo da Copersucar. “A expectativa hoje, salvo algum evento climático mais relevante, é que tenha um cenário de superávit de açúcar de excesso de estoque, o que deve pressionar um pouco os preços em curto prazo”, observou Manzano. 

Índia

A produção total de açúcar já totaliza 3,9 milhões de toneladas, 40% acima do mesmo período de 2016; 443 usinas em operação em novembro vs 393 no mesmo período em 2016;
MA 1,5 MMt, 59% acima YoY (Year over Year)
UP 1,4 MMt, 60% acima YoY (Year over Year)

Tailândia

Após quebra de safra por seca, forte recuperação em 2017;
2015-16: 94 milhões de t
2016-17: 93 milhões de t
2017-18: 115 milhões de t
Além disso, houve aumento de área de 12,4% e o início de moagem em dezembro/17  começou com ATR alto e clima normal em novembro, assim como o esperado também para o mês de dezembro.

Centro-Sul do Brasil

Após dois anos de mix voltado para o açúcar, a safra 2018/19 deve priorizar a produção de etanol, além da expectativa de redução de mix para o açúcar em função de preços mais atrativos para o etanol na safra 2018/19. O Centro-Sul pode retirar de 2 a 4 milhões de toneladas de oferta de açúcar; apenas 25% da safra precificada e flexibilidade para produção.

Mercado sucroenergético - safra 2018/19

O clima desfavorável de janeiro a outubro de 2017 com chuvas abaixo da média em grande parte do Centro-Sul causará impacto na produtividade da cana soca nos primeiros meses de 2018/19 e atraso no plantio. O aumento de renovação do canavial em 2017, porém ainda abaixo dos níveis desejados leva à uma expectativa de mais um ano de envelhecimento do canavial. A probabilidade do La Niña no mês de  dezembro de 2017 poderá comprometer o desenvolvimento de cana.

Visão preliminar: menor disponibilidade de cana para 2018/19 no Centro-Sul

Como já mencionado, a mudança de mix de açúcar para etanol influenciado por paridades de preços mais atrativos ao etanol poderá levar o Centro-Sul a retirar a produção de 2 a 4 milhões de toneladas de açúcar na safra 2018/19. Além disso, prevê-se o aumento do Ciclo Otto no mercado doméstico potencializado pela expectativa de retomada econômica em 2018 e, o aumento do PIS/COFINS na gasolina poderá elevar a competitividade do etanol hidratado frente à gasolina e provável volatilidade cambial em função das eleições deste ano.

O diretor de Controladoria e Relação com Usinas da Copersucar ainda reforçou em suas projeções que a redução da produção de açúcar no Brasil na próxima safra terá baixo impacto na expectativa de superávit mundial; menor crescimento da demanda mundial de açúcar impulsionada por iniciativas de redução de consumo; expectativa de menor disponibilidade de cana na safra 2018/19 no Centro-Sul e migração de mix para etanol e cenário construtivo para o etanol no Brasil na safra 2018/19.

Mercado de etanol

A pressão para fazer caixa por parte das usinas fez com que o mercado de biocombustíveis não começasse o ano de forma positiva, segundo a visão do diretor da Bioagência. Ele explicou que os preços de gasolina ainda não haviam entrado na nova política da Petrobras, mas quando a companhia começou a aplicar os preços internacionais e houve um rearranjo tributário, que aumentou a competitividade do etanol na bomba, o biocombustível foi beneficiado. “O cenário mudou muito após estas mudanças. O etanol ganhou competitividade frente à gasolina e os preços se recuperaram, o que deverá se refletir em uma entressafra de bons preços para as usinas”, disse o executivo que ainda destacou: “A boa demanda e os preços do petróleo em patamares elevados deverá manter os preços da gasolina elevados nesta entressafra e no início da próxima safra, quando devemos ter uma safra bastante alcooleira. O crescimento da demanda favorecerá a mudança do mix e também trará um impacto positivo nas cotações de açúcar da próxima safra”, projetou Rodrigues.