Faces da sustentabilidade

Voltar
02/02/2018

Por: Marino Guerra

O conceito de lucro no Brasil é com certeza um dos motivos que como uma âncora segura essa nação no lamaçal do subdesenvolvimento. Podem fazer uma pesquisa onde é comparado um empresário de sucesso com algum político popular que possui uma grande bagagem de casos de corrupção nas costas, vê quem a maioria convidaria para um jantar em sua casa.

Com certeza esse sentimento é gerado pois a ineficiência sempre foi cultuada nesse país, e as pessoas que adquirem esse vírus possuem como principal sentimento a inveja por quem trabalha, por quem produz, características primordiais para quem busca o lucro honesto.

Partindo desse comportamento, é natural que essa parte da população passaria a adotar os outros dois pilares da sustentabilidade como muletas para encontrar falhas em quem é produtivo. Sendo assim, questões ambientais e sociais passaram a ter relevância exacerbada. Pessoas que não possuem a iniciativa de executar a própria reciclagem de seu lixo doméstico, quem dirá algum trabalho voluntário, se armaram de pedras e passaram a atirar (em grande parte de maneira virtual) nos mais irrelevantes fatos onde conseguiram interpretar que os “capitalistas selvagens” estariam destruindo o planeta.

E quem é do setor canavieiro conhece bem essa história. No entanto, ao invés de entrar em uma discussão de futebol com os inúteis, reconheceu seus desafios e evoluiu. Atendimento às regras do código florestal, mecanização do corte e formalização das relações trabalhistas,foram apenas os principais itens dos outros dois aspectos da sustentabilidade (social e ambiental) onde a cana-de-açúcar evoluiu de maneira íngreme, isso sem poder contar com o ponto econômico, pois em paralelo, enfrentou a maior crise de sua história.

Brasil sustentável

Mônika Bergamaschi: “O Brasil não está sustentável, o agronegócio é uma parte dele”. Essa visão objetiva da presidente do Ibisa (Instituto Brasileiro para a Inovação e Sustentabilidade do Agronegócio) desmistifica uma polarização, que virou senso comum em boa parte da sociedade, que ainda vem de uma leitura dos tempos do Brasil Colônia a qual era baseada na ideia do patriarcalismo, ou seja, o dono da terra era também proprietário de tudo que tinha nela, desde a plantação, passando por escravos, funcionários, mulher e filhos.

O patriarca morreu faz tempo, o campo evoluiu, tanto é que hoje é o setor que mais respeita os princípios do cooperativismo, no qual mostra que o trabalho em conjunto traz muito mais resultados que a prática solitária e autoritária.

Porém muitos vícios daquela época permanecem assombrando o setor urbano. Corrupção, burocracia, ineficiência e ignorância são males que aumentaram de maneira absurda dos tempos de Dom Pedro para cá. Imagina se a evolução de nossa sociedade tivesse sido tão bem-sucedida como a do campo. Não tenho dúvidas que seríamos uma das nações mais desenvolvidas do mundo.

Com isso fica claro a noção que para ser totalmente sustentável o agronegócio precisa do Brasil, e para ser desenvolvido o Brasil precisa do agro.

Na visão da executiva, o Brasil precisa entender que as soluções para as mazelas que atingem a população (saúde, educação, segurança e transporte) virão a partir do momento que o agronegócio for assumido como o setor que gera prosperidade pelos governos e então passar a desenvolver políticas que contribuam para o seu desenvolvimento, como por exemplo: ter uma lei trabalhista específica para a realidade no campo, investimento em infraestrutura para armazenamento e escoamento de safra.

Baseada no fato de que principalmente nos últimos anos quem sustenta o país e o agronegócio, a também presidente da Abag-RP avalia. “O campo precisa de escoamento, mas vão falar que escoamento não é importante, que as prioridades são saúde e educação. No entanto, se o escoamento continuar da mesma maneira, vai quebrar o produtor e não terá dinheiro para sustentar um monte de programa social do Governo, como o bolsa-família e o minha casa, minha vida. É necessário distribuir melhor para desenvolver quem precisa ser desenvolvido e a partir disso sustentar um desenvolvimento completo da sociedade”.

Ainda como prova da importância do campo na economia foi a baixa significativa da inflação em 2017, causada pela queda no valor dos alimentos e ainda lembra que em um passado não muito distante, por uma presidente impedida, a agricultura foi apontada por uma galopante alta da inflação. “Quando o tomate foi a R$ 12,00 o quilo, a Dilma jogou nas costas dele como o responsável pelos números aterrorizantes da alta de preços na época. Agora não vi nenhuma capa de jornal dizendo a importância do campo no cenário de deflação. Não estou dizendo que não é para apontar os erros, só peço aplausos na hora que acertamos”.

De certo poucos cidadãos conseguem reconhecer o que se comia e que preço pagava para se alimentar há vinte anos, e a fartura de uma mesa e o seu valor nos dias de hoje. Isso não se deu fazendo protestos, isso se deu através de muito trabalho, em decorrência de pesquisas que geraram tecnologias.

Sendo assim, é preciso acabar de uma vez por todas com s visão míope que uma política agrícola vai beneficiar um grupo com “quatro ou cinco privilegiados por deus detentores de grandes extensões de terras” que ficam com todo o lucro e distribuem migalhas aos coitados que possuem a infelicidade de trabalharem no campo. Somente quando cada cidadão que habita esse país passar a defender o agronegócio é que aceleraremos a marcha no sentido da sustentabilidade da nação, lembrando que esse conceito engloba a economia, a sociedade e o seu meio ambiente.

Opinião pública sustentável

Quando algo atinge um tamanho ou importância muito grande com certeza passa a ser vidraça se tornando alvo predileto aos atores da mídia que ganham a vida em atirar pedras. E com certeza o agronegócio não ficaria de fora a partir do momento que assumiu seu protagonismo no cenário econômico mundial, com a abertura de mercado realizada no Governo Collor, início da década de 90, onde ficou evidente a sua eficiência, principalmente para equilibrar ou deixar a favor a balança comercial.

Penando no triângulo da sustentabilidade, a comunicação do setor, tanto para o público interno como externo, nem precisou trabalhar muito para representar sua importância na economia, e o problema foi justamente esse, notícias positivas não vendem jornal. Sendo assim, logo começaram a pipocar reportagens sobre o quanto maléfico era o campo para as pessoas e as árvores.

Desde então o setor enfrenta uma verdadeira cruzada para mostrar todas as suas ações. Quebrar a ignorância das massas é algo mais complexo do que aparenta. Porém, ações muito bem-sucedidas já trouxeram resultados positivos, dentre elas existem duas que já foram inseridas aos anais da comunicação do agronegócio.

As duas foram desenvolvidas pela Abag-RP. A primeira consistia em uma sequência de informes publicitários veiculados na televisão sob o slogan “Agronegócio, sua vida depende dele” o qual muitos apontam como o precursor da campanha da Rede Globo “Agro: A Indústria Riqueza do Brasil”.

O segundo programa, criado em 2001 e está em operação até hoje, é o “Agronegócio na Escola”, que trabalha temas envolvidos com o setor com professores, coordenadores e alunos das duas últimas séries do ensino fundamental (13 a 14 anos de idade). Nesse programa, através da capacitação de todos os envolvidos (palestras e visitas a unidades agroindustriais) é mostrada a interdependência entre campo e cidade, deixando que os próprios envolvidos excluam paradigmas fantasiosos comprovando como tudo funciona de perto.
O sucesso dessa ação é tamanho que diversas entidades e grupos empresariais de outras regiões(a associação comandada pela Mônika Bergamaschiatua somente na de Ribeirão Preto), vem conhecer o programa para replicar.

Também baseado nessa metodologia (seminário, ciclo de palestras e visitas) a entidade agregou a categoria jovem talento ao seu prêmio anual de jornalismo, onde além de premiar as melhores reportagens feitas pelos universitários, também faz com que os futuros formadores de opinião se desarmem de seus preconceitos. Vale lembrar que esse programa envolvem todos os estudantes do estado de São Paulo.

A frente de todo esse portfólio de ações, a executiva tem uma visão muito prática sobre o assunto. “É preciso mostrar o agro para o maior número de pessoas possíveis, desmistificar conceitos absurdos, assim eles mesmo começarão a questionar os rostinhos bonitos que tanto nos critica nas redes sociais e então ou sumirão ou procurarão outra vizinhança para importunar. Nosso trabalho vai além de apresentar, estimulamos as pessoas a pensar, sendo assim elas terão argumentação para corrigir algum próximo que blasfemar alguma inverdade sobre nós”.

Mônika ainda vê o Brasil em um processo avançado de amadurecimento e prevê que o dia onde a população entender que a cana-de-açúcar não é do usineiro, que tudo é uma imensa cadeia onde a riqueza é dividida em cada parte desse elo, inclusive o próprio consumidor, a comunicação do agro terá atingido sua plenitude em seu processo de sustentabilidade.

Agroquímicos sustentáveis

Quando se pensa no uso sustentável de agroquímicos logo vem a visão de que os agricultores são malucos, encharcam os solos de suas lavouras com venenos e que a grande maioria desses produtos serão consumidos através dos alimentos ou da água, sendo isso o maior responsável pelo aumento vertiginoso nos casos de câncer.

Para começar aquebrar essa visão exagerada, porém real, que está cravada noimaginário de muita gente, principalmente aqueles que nunca tiveram contato algum com o meio produtivo rural, é necessário primeiro partir da lógica que agricultor nenhum rasga dinheiro, pelo contrário, hoje o trabalho de controle de custos é primordial em uma lavoura, e o valor dos defensivos não são nada convidativos para seu uso sem critérios. Isso sem contar o risco do uso errado em dar prejuízos no sentido de produtividade e qualidade da colheita. Sendo assim, o aspecto econômico do tripé da sustentabilidade está garantido, até porque se não for assim dificilmente o produtor consegue permanecer no negócio.

No entanto os mais exaltados vão perguntar: - Concordo com a questão econômica, mas por outro lado os números mostram que o Brasil é o maior consumidor de agroquímicos do mundo,por que então ocupa essa posição?

Até um tempo atrás muitas vezes essa pergunta ficava no ar, sem uma resposta definitiva. Talvez incomodado com a superficialidade desse debate, mesmo em esferas onde o nível de conhecimento era maior, o professor e pesquisador da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp de Botucatu, Caio Carbonari, desenvolveu um estudo com o objetivo de definir o quanto é eficiente a utilização de defensivos por parte da agricultura brasileira, considerando quatro culturas: soja, milho, cana e algodão.

E bingo! Adivinhem o resultado! Mais uma vez, e isso deve estar ficando algo insuportável aos críticos, o agro brasileiro mostrou sua eficiência, se tornando dentre as nações de primeiro mundo agrícola com o uso mais consciente, considerando a área e a produtividade.

Com base em dados de 2013, o ranking de consumo total de agroquímicos por unidade de área cultivada, calculado em dólar por hectare, o Brasil ocupa a sétima posição, ficando à frente de nações europeias que adoram apontar o dedo para os trópicos como grandes poluidores do planeta, como Reino Unido, Itália, França e Alemanha. O maior destaque aparece na liderança dessa relação, onde o ocupante é o Japão (uma das nações com maior índice de longevidade), que gasta mais de US$ 1,1 mil por hectares com defensivos em sua lavoura. À título de comparação o consumo brasileiro é um pouco maior que US$ 100,00.

Se parar para pensar,a pesquisa por área também não mostra a real eficiência das lavouras. Isso porque se gastar muito e colher muito o uso pode ser justificado, então Carbonarie sua equipe também fizeram o ranking do consumo por tonelada de produto agrícola. Nesse o agro brasileiro deu um show um pouco maior, ocupando a 13ª posição, ficando atrás dos mesmos da relação por área acrescentando a Espanha, nossos vizinhos argentinos e o maior concorrente brasileiro no quesito de abastecimento do mercado mundial de alimentos e energia, os Estados Unidos.

A pesquisa é baseada no EIQ (Coeficiente de Impacto Ambiental), índice utilizado em todo o mundo para medir os riscos ambientais no uso de defensivos, aceito e utilizado tanto por parte das agências reguladoras como centros de pesquisa. Para fazer essa medição é preciso considerar uma série de características dos produtos e seus ingredientes ativos, como por exemplo: a dinâmica ambiental, toxicidade, características físico-químicas, persistência no ambiente, entre outros.

Com base nesse universo de informaçõessão apresentados números de risco em três grandes áreas: o trabalhador (quem está manipulando o produto), o risco para o consumidor e os riscos ambientais. 

Sendo assim, os resultados vão muito além de gerar o ranking entre nações, mas serve como termômetro para comparação entre produtos, para monitorar a eficiência do uso nas culturas ao longo do tempo (a primeira versão analisou os resultados de 2002 a 2015), além de uma infinidade de relatórios que poderão ser gerados ao aprofundar e cruzar essa quantidade gigantesca de dados.

Além da posição no ranking, o estudo ainda revelou outros dados interessantes. No caso da soja, têm situações que o EIQ brasileiro é inferior em relação somente ao EIQ de herbicidas norte-americano, sem considerar os fungicidas e inseticidas.

Ainda considerando o grão, o EIQ para trabalhador caiu de 2002 a 2015 cerca de 55%, quando o índice era próximo de 4 no início do século e treze anos depois apresentava ser menor que 2. No caso de consumidores a redução foi de 37%.
“Isso é maravilhoso, vai na contramão de toda a imagem que se cultua em relação ao uso de agroquímico. A opinião pública faz a imagem de que nós estamos usando mais, usando sem critério, estamos contaminando o ambiente, as pessoas, o trabalhador. Quando na verdade não é isso, estamos na direção contrária a isso”, desabafou o pesquisador.

Ao analisar os números referentes à cana-de-açúcar em relação às outas culturas brasileiras, ela fica com o título de oferecer o menor risco. Esse fator se deve ao fato do consumo de herbicida ser muito maior se comparado aos outros defensivos, o que embora dificulte ainda mais o planejamento de aplicação, em decorrência das questões de seletividade (é muito mais complicado matar o vegetal sem prejudicar a cultura, do que uma praga ou um fungo, já que são tipos de vidas diferentes), suas características agridem menos tanto quem o manipula, como o ambiente que é produzido e o alimento que é gerado.

Embora tenha apresentado a maior queda, mais de dez pontos, ao longo do período analisado, o EIQ de cana ambiental ainda é o mais alto, fechando 2015 pouco abaixo da casa dos 25 pontos. O índice para os trabalhadores e consumidores é extremamente inofensivo, sendo o primeiro pouco acima da casa dos 5 e o segundo pouco baixo disso.

Identificar razões para essa queda não foi o objetivo da pesquisa, pelo menos nesse momento inicial, mas algumas tendências com certeza influenciaram nesses números, como a evolução no uso de EPI no campo, o trabalho incessante da indústria em pesquisa e desenvolvimento para o lançamento de moléculas cada vez mais eficientes, a biotecnologia, a mecanização, a questão de manejo integrado, enfim todo o pacote tecnológico que o ambiente do agronegócio brasileiro nunca deixou de participar, seja ele desenvolvido aqui ou internacionalmente.

Essa cabeça aberta do campo nacional também justifica a eficiência no uso dos defensivos e dois grandes motivos explicam o que motivou o brasileiro ser tão bom. O primeiro é uma questão governamental. Enquanto a maioria das outras agriculturas do hemisfério norte são mimadas em relação a subsídios e infraestrutura que garante uma vida bem tranquila pós porteira, aqui a coisa é “hard”, governo nenhum passa a mão na cabeça de agricultor, aliásage como  um pai dissimulado que espanca e tira dinheiro do próprio salário do filho (políticas tributárias e código florestal) e enche o peito de orgulho ao falar para os amigos (outros países) que deu a educação correta para ele conseguir entrar em uma faculdade pública de medicina.

O segundo motivo é relacionado a fatores climáticos. Não seria demérito nenhum para a agricultura brasileira, se o resultado no ranking de risco no uso de agroquímicos não tivesse sido tão bom, isso porque por estar inserida em um clima tropical, pragas, doenças e plantas daninhas encontram um ambiente favorável em se tornar perenes e aumentar a sua população, ao contrário dos parceiros desenvolvidos do norte, onde ao atravessar um inverno rigoroso, tem sua terra praticamente livre para o plantio sem a necessidade de investir uma só gota em defensivos.

Embora o resultado da pesquisa seja um marco dentro do seu próprio objeto de estudo, ela própria precisa garantir a sua sustentabilidade. Nesse caso os aspectos econômicos se tornam essenciais para não somente a manutenção dos estudos, mas a sua modernização e isso envolvea evolução em hardwares e softwares que permitam a chegada de novas conclusões através do processamento mais eficiente de dados e também a aquisição de informações mais recentes. Com certeza o sonho de todos que conhecem o trabalho é ter a oportunidade de poder acessá-lo de maneira on-line e a partir daí extrair os relatórios necessários. Garantimos que pautas para a revista não iriam faltar.

Fornecedor sustentável

Uma ideia na cabeça e uma pasta embaixo do braço, narrar como a Assobari (Associação dos Fornecedores da Cana da Região de Bariri) se tornou a primeira entidade do setor a conquistar a certificação de sustentabilidade. Embora seja recente é nostálgico, pois remete a um tempo onde as pessoas empreendiam no setor, que depositavam recursos e suor para que ele evoluísse.

A história foi tão bem narrada pelo presidente da associação, Ulisses Fanton, que decidimos colocá-la da mesma forma que ele nos contou.
“A ideia da certificação nasceu pois havia um comentário geral sobre o sequestro de carbono. Todos falando sobre a venda dele e tudo mais, ouvindo isso eu pensei: - Vamos vender carbono.

Colocamos a pastinha em baixo do braço e fomos bater na porta de grandes empresas como a Petrobras. Até no Deutsche Bank nós fomos falando que éramos uma associação com pequenos fornecedores de cana. Ninguém dava nem conversa, até que um dia um cidadão perguntou se nós éramos certificados. E então um ponto de interrogação apareceu na nossa cabeça: - Mas o que é isso?
E então o cidadão falou: - Vocês precisam ser certificados senão não vão vender nada. Não tínhamos informação precisa nenhuma, só falávamos que éramos fornecedor de cana e que ela sequestrava carbono.

Sabendo que seria necessária a certificação para conseguirmos viabilizar o negócio, fomos atrás dela. Era meados de 2007, o Lula bombando com o etanol, era o nosso melhor amigo, então pensamos: - Se é por aí, vamos procurar alguém que certificou e pegar o projeto como base.

Simplesmente não tinha nada de cana. Na pecuária, o boi estava começando aquele negócio de brinco.Começamos a procurar em outras culturas e achamos uma certificação de acerola ali na região de Dracena-SP, com 12 produtores envolvidos. Eles se uniram para conseguir exportar o suco.Mais para frente um pouco, havia uma de limãotaiti, com 30 agricultores, era uma produção muito pequena, coisa de caixas. Logo entendi que nossa realidade era outra.
Aí ficamos em uma sinuca de bico, não sabendo o que fazer. Foi quando tivemos a ideia de ir no Sebrae de Bauru. Mostramos o nosso projeto e falamos que precisaríamos criar um protocolo próprio.

A associação conseguiu duas parceiras importantes na concretização do projeto, a Della Coletta Bioenergia (usina localizada em Bariri) e a OIA (Organização Internacional Agropecuária), empresa certificadora que nos ajudou com a sua experiência para o desenvolvimento do protocolo. Na verdade, eles deram apenas um norte de como executar o serviço para a nossa realidade.

Com o trabalho em conjunto demoramos um ano e meio para finalizar o protocolo, que contém 311 itens focando a parte social, agronômica e ambiental.

A respeito da viabilidade econômica foi fácil resolver, pois fizemos um acordo de cavalheiros com a usina, onde ficou combinado que se ela ganhasse algo a mais devido a certificação o valor seria distribuído com os fornecedores.

Não sei se ela chegou a ganhar, acho que não, mas ao longo de 4 anos foi paga uma bonificação que começou com R$ 0,90 por tonelada, depois passou a R$ 1,00, R$ 1,10 e R$ 1,15. Isso chegou a representar para alguns fornecedores um acréscimo de 5% no total a ser recebido.

Vendo que havia retorno, mais fornecedores passaram a ter interesse e então a associação passou a realizar o serviço de consultoria para realização do projeto. Para entender a importância da participação da Assobari, o Sebrae havia mensurado um tempo mínimo de 3 anos para que 25 dos 50 associados que haviam começado o programa conseguissem a certificação. Em um ano e meio já estávamos com 75% desse grupo com seu canavial certificado.

Todo esse trabalho fez muito bem para o desenvolvimento de nossa entidade. Por ser nova, nos obrigaram a desenvolver uma complexa gestão de documentos. Hoje temos desde a certidão de nascimento dos filhos do nosso fornecedor, todos os documentos da família, as escrituras, contrato com a usina, mapas, notas fiscais do diesel e outros insumos comprados, enfim, uma infinidade de documentos.

Com o passar do tempo aprendemos como funciona esse mercado e entendemos que sozinhos, sem a usina, nossa certificação pouco adiantava, isso porque nesse meio existe um negócio que se chama cadeia de custódia, onde não adianta o agricultor conseguir o selo se a indústria não tiver.

No meio desse processo apareceu o selo Bonsucro, que consiste na análise de sustentabilidade das usinas. Grandes empresas mundiais como Coca-Cola e Unilever (dona da marca Kibon), Bacardi, entre outras o exigem como garantia que toda a cadeia onde o produto está inserido respeita os princípios sustentáveis.

O grande problema é que a Bonsucro era uma empresa de Londres e no princípio eles não acreditavam que existia a presença de fornecedores na cadeia produtiva do açúcar. Na visão deles os canaviais eram todos das unidades industriais.
Foi uma luta até conseguir mostrar para eles como funcionava a figura do fornecedor de cana. Chegamos lá, explicamos toda a dinâmica do negócio -imagina a hora que chegamos no Consecana -, e assim demoramos um bom tempo até que conseguimos o reconhecimento.

Aí a crise esfriou tudo. A usina entrou em séria dificuldade financeira com problemas para pagar, a bonificação sumiu e então o programa estacionou. É válido lembrar que as únicas baixas foram relacionadas à fornecedores que abandonaram o negócio da cana mantendo o número de cerca de 60 até hoje”.

A história ainda produziu fatos que atraíram a Orplana e todas as associações parceiras, fazendo com que esteja em fase de finalização um planejamento em parceira com a ONG Solidariedade para alcançar a casa dos 5 mil produtores certificados em 10 anos.

Essa meta está diretamente ligada com o projeto da revisão do Consecana, que consiste em premiar o fornecedor através do cumprimento de metas de eficiência. Dentre as formas de ampliar os ganhos a certificação está incluída.

Porém os verdadeiros frutos dos precursores dessa empreitada, veio de um lugar que ninguém imaginava: a redução de custos. Como atender a todos os itens do protocolo exige uma adaptação constante no método de como trabalhar e também uma minuciosa auditoria, que no caso da Assobari é feita pela própria associação, o controle de custos surgiu de maneira natural.

Hoje nós controlamos o quanto cada produtor consome desde o óleo diesel até os defensivos agrícolas. Com isso temos condição de saber se há gargalos na operação de cada participante e informá-los antes que o prejuízo fique maior”.

Os números não mentem. A cana certificada apresenta um ATR maior, 5% a mais na produção, custo menor e tem 18 meses a mais em seu ciclo em relação as não certificadas”.

Embora os números de rentabilidade sejam interessantes e estimulantes, Fanton analisa que o grande mérito do projeto foi o de provocar os fornecedores a sair de suas zonas de conforto e buscar a melhoria da qualidade de sua lavoura.

O bêbado e o equilibrista

A embriaguez causa bipolaridade nas pessoas. No caso sucroenergético podemos entender esse antagonismo dos últimos anos entre o total abandono governamental aliado com uma gigantesca pressão da opinião pública em busca de metas cada vez mais ousadas nos dois pilares da sustentabilidade que a interessavam, ou lhe era conveniente: a reponsabilidade social e a ambiental.

De uma maneira que ainda economista nenhum consegue explicar, o setor se fechou e conseguiu atingir o equilíbrio se mantendo em pé economicamente falando.

Dançamos durante um bom período na corda bamba, de sombrinhas. Muitos não conseguiram dar o passo adiante na linha e se machucaram, ou tiveram que sair do mercado. Porém muito além a esperança, mas também a persistência e obstinação equilibrista aprendeu e tudo indica que a partir de agora, o show vai começar.

Fonte: Revista Canavieiros

COMENTÁRIOS

0 comentários postados

Faces da sustentabilidade

02/02/2018

Por: Marino Guerra

O conceito de lucro no Brasil é com certeza um dos motivos que como uma âncora segura essa nação no lamaçal do subdesenvolvimento. Podem fazer uma pesquisa onde é comparado um empresário de sucesso com algum político popular que possui uma grande bagagem de casos de corrupção nas costas, vê quem a maioria convidaria para um jantar em sua casa.

Com certeza esse sentimento é gerado pois a ineficiência sempre foi cultuada nesse país, e as pessoas que adquirem esse vírus possuem como principal sentimento a inveja por quem trabalha, por quem produz, características primordiais para quem busca o lucro honesto.

Partindo desse comportamento, é natural que essa parte da população passaria a adotar os outros dois pilares da sustentabilidade como muletas para encontrar falhas em quem é produtivo. Sendo assim, questões ambientais e sociais passaram a ter relevância exacerbada. Pessoas que não possuem a iniciativa de executar a própria reciclagem de seu lixo doméstico, quem dirá algum trabalho voluntário, se armaram de pedras e passaram a atirar (em grande parte de maneira virtual) nos mais irrelevantes fatos onde conseguiram interpretar que os “capitalistas selvagens” estariam destruindo o planeta.

E quem é do setor canavieiro conhece bem essa história. No entanto, ao invés de entrar em uma discussão de futebol com os inúteis, reconheceu seus desafios e evoluiu. Atendimento às regras do código florestal, mecanização do corte e formalização das relações trabalhistas,foram apenas os principais itens dos outros dois aspectos da sustentabilidade (social e ambiental) onde a cana-de-açúcar evoluiu de maneira íngreme, isso sem poder contar com o ponto econômico, pois em paralelo, enfrentou a maior crise de sua história.

Brasil sustentável

Mônika Bergamaschi: “O Brasil não está sustentável, o agronegócio é uma parte dele”. Essa visão objetiva da presidente do Ibisa (Instituto Brasileiro para a Inovação e Sustentabilidade do Agronegócio) desmistifica uma polarização, que virou senso comum em boa parte da sociedade, que ainda vem de uma leitura dos tempos do Brasil Colônia a qual era baseada na ideia do patriarcalismo, ou seja, o dono da terra era também proprietário de tudo que tinha nela, desde a plantação, passando por escravos, funcionários, mulher e filhos.

O patriarca morreu faz tempo, o campo evoluiu, tanto é que hoje é o setor que mais respeita os princípios do cooperativismo, no qual mostra que o trabalho em conjunto traz muito mais resultados que a prática solitária e autoritária.

Porém muitos vícios daquela época permanecem assombrando o setor urbano. Corrupção, burocracia, ineficiência e ignorância são males que aumentaram de maneira absurda dos tempos de Dom Pedro para cá. Imagina se a evolução de nossa sociedade tivesse sido tão bem-sucedida como a do campo. Não tenho dúvidas que seríamos uma das nações mais desenvolvidas do mundo.

Com isso fica claro a noção que para ser totalmente sustentável o agronegócio precisa do Brasil, e para ser desenvolvido o Brasil precisa do agro.

Na visão da executiva, o Brasil precisa entender que as soluções para as mazelas que atingem a população (saúde, educação, segurança e transporte) virão a partir do momento que o agronegócio for assumido como o setor que gera prosperidade pelos governos e então passar a desenvolver políticas que contribuam para o seu desenvolvimento, como por exemplo: ter uma lei trabalhista específica para a realidade no campo, investimento em infraestrutura para armazenamento e escoamento de safra.

Baseada no fato de que principalmente nos últimos anos quem sustenta o país e o agronegócio, a também presidente da Abag-RP avalia. “O campo precisa de escoamento, mas vão falar que escoamento não é importante, que as prioridades são saúde e educação. No entanto, se o escoamento continuar da mesma maneira, vai quebrar o produtor e não terá dinheiro para sustentar um monte de programa social do Governo, como o bolsa-família e o minha casa, minha vida. É necessário distribuir melhor para desenvolver quem precisa ser desenvolvido e a partir disso sustentar um desenvolvimento completo da sociedade”.

Ainda como prova da importância do campo na economia foi a baixa significativa da inflação em 2017, causada pela queda no valor dos alimentos e ainda lembra que em um passado não muito distante, por uma presidente impedida, a agricultura foi apontada por uma galopante alta da inflação. “Quando o tomate foi a R$ 12,00 o quilo, a Dilma jogou nas costas dele como o responsável pelos números aterrorizantes da alta de preços na época. Agora não vi nenhuma capa de jornal dizendo a importância do campo no cenário de deflação. Não estou dizendo que não é para apontar os erros, só peço aplausos na hora que acertamos”.

De certo poucos cidadãos conseguem reconhecer o que se comia e que preço pagava para se alimentar há vinte anos, e a fartura de uma mesa e o seu valor nos dias de hoje. Isso não se deu fazendo protestos, isso se deu através de muito trabalho, em decorrência de pesquisas que geraram tecnologias.

Sendo assim, é preciso acabar de uma vez por todas com s visão míope que uma política agrícola vai beneficiar um grupo com “quatro ou cinco privilegiados por deus detentores de grandes extensões de terras” que ficam com todo o lucro e distribuem migalhas aos coitados que possuem a infelicidade de trabalharem no campo. Somente quando cada cidadão que habita esse país passar a defender o agronegócio é que aceleraremos a marcha no sentido da sustentabilidade da nação, lembrando que esse conceito engloba a economia, a sociedade e o seu meio ambiente.

Opinião pública sustentável

Quando algo atinge um tamanho ou importância muito grande com certeza passa a ser vidraça se tornando alvo predileto aos atores da mídia que ganham a vida em atirar pedras. E com certeza o agronegócio não ficaria de fora a partir do momento que assumiu seu protagonismo no cenário econômico mundial, com a abertura de mercado realizada no Governo Collor, início da década de 90, onde ficou evidente a sua eficiência, principalmente para equilibrar ou deixar a favor a balança comercial.

Penando no triângulo da sustentabilidade, a comunicação do setor, tanto para o público interno como externo, nem precisou trabalhar muito para representar sua importância na economia, e o problema foi justamente esse, notícias positivas não vendem jornal. Sendo assim, logo começaram a pipocar reportagens sobre o quanto maléfico era o campo para as pessoas e as árvores.

Desde então o setor enfrenta uma verdadeira cruzada para mostrar todas as suas ações. Quebrar a ignorância das massas é algo mais complexo do que aparenta. Porém, ações muito bem-sucedidas já trouxeram resultados positivos, dentre elas existem duas que já foram inseridas aos anais da comunicação do agronegócio.

As duas foram desenvolvidas pela Abag-RP. A primeira consistia em uma sequência de informes publicitários veiculados na televisão sob o slogan “Agronegócio, sua vida depende dele” o qual muitos apontam como o precursor da campanha da Rede Globo “Agro: A Indústria Riqueza do Brasil”.

O segundo programa, criado em 2001 e está em operação até hoje, é o “Agronegócio na Escola”, que trabalha temas envolvidos com o setor com professores, coordenadores e alunos das duas últimas séries do ensino fundamental (13 a 14 anos de idade). Nesse programa, através da capacitação de todos os envolvidos (palestras e visitas a unidades agroindustriais) é mostrada a interdependência entre campo e cidade, deixando que os próprios envolvidos excluam paradigmas fantasiosos comprovando como tudo funciona de perto.
O sucesso dessa ação é tamanho que diversas entidades e grupos empresariais de outras regiões(a associação comandada pela Mônika Bergamaschiatua somente na de Ribeirão Preto), vem conhecer o programa para replicar.

Também baseado nessa metodologia (seminário, ciclo de palestras e visitas) a entidade agregou a categoria jovem talento ao seu prêmio anual de jornalismo, onde além de premiar as melhores reportagens feitas pelos universitários, também faz com que os futuros formadores de opinião se desarmem de seus preconceitos. Vale lembrar que esse programa envolvem todos os estudantes do estado de São Paulo.

A frente de todo esse portfólio de ações, a executiva tem uma visão muito prática sobre o assunto. “É preciso mostrar o agro para o maior número de pessoas possíveis, desmistificar conceitos absurdos, assim eles mesmo começarão a questionar os rostinhos bonitos que tanto nos critica nas redes sociais e então ou sumirão ou procurarão outra vizinhança para importunar. Nosso trabalho vai além de apresentar, estimulamos as pessoas a pensar, sendo assim elas terão argumentação para corrigir algum próximo que blasfemar alguma inverdade sobre nós”.

Mônika ainda vê o Brasil em um processo avançado de amadurecimento e prevê que o dia onde a população entender que a cana-de-açúcar não é do usineiro, que tudo é uma imensa cadeia onde a riqueza é dividida em cada parte desse elo, inclusive o próprio consumidor, a comunicação do agro terá atingido sua plenitude em seu processo de sustentabilidade.

Agroquímicos sustentáveis

Quando se pensa no uso sustentável de agroquímicos logo vem a visão de que os agricultores são malucos, encharcam os solos de suas lavouras com venenos e que a grande maioria desses produtos serão consumidos através dos alimentos ou da água, sendo isso o maior responsável pelo aumento vertiginoso nos casos de câncer.

Para começar aquebrar essa visão exagerada, porém real, que está cravada noimaginário de muita gente, principalmente aqueles que nunca tiveram contato algum com o meio produtivo rural, é necessário primeiro partir da lógica que agricultor nenhum rasga dinheiro, pelo contrário, hoje o trabalho de controle de custos é primordial em uma lavoura, e o valor dos defensivos não são nada convidativos para seu uso sem critérios. Isso sem contar o risco do uso errado em dar prejuízos no sentido de produtividade e qualidade da colheita. Sendo assim, o aspecto econômico do tripé da sustentabilidade está garantido, até porque se não for assim dificilmente o produtor consegue permanecer no negócio.

No entanto os mais exaltados vão perguntar: - Concordo com a questão econômica, mas por outro lado os números mostram que o Brasil é o maior consumidor de agroquímicos do mundo,por que então ocupa essa posição?

Até um tempo atrás muitas vezes essa pergunta ficava no ar, sem uma resposta definitiva. Talvez incomodado com a superficialidade desse debate, mesmo em esferas onde o nível de conhecimento era maior, o professor e pesquisador da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp de Botucatu, Caio Carbonari, desenvolveu um estudo com o objetivo de definir o quanto é eficiente a utilização de defensivos por parte da agricultura brasileira, considerando quatro culturas: soja, milho, cana e algodão.

E bingo! Adivinhem o resultado! Mais uma vez, e isso deve estar ficando algo insuportável aos críticos, o agro brasileiro mostrou sua eficiência, se tornando dentre as nações de primeiro mundo agrícola com o uso mais consciente, considerando a área e a produtividade.

Com base em dados de 2013, o ranking de consumo total de agroquímicos por unidade de área cultivada, calculado em dólar por hectare, o Brasil ocupa a sétima posição, ficando à frente de nações europeias que adoram apontar o dedo para os trópicos como grandes poluidores do planeta, como Reino Unido, Itália, França e Alemanha. O maior destaque aparece na liderança dessa relação, onde o ocupante é o Japão (uma das nações com maior índice de longevidade), que gasta mais de US$ 1,1 mil por hectares com defensivos em sua lavoura. À título de comparação o consumo brasileiro é um pouco maior que US$ 100,00.

Se parar para pensar,a pesquisa por área também não mostra a real eficiência das lavouras. Isso porque se gastar muito e colher muito o uso pode ser justificado, então Carbonarie sua equipe também fizeram o ranking do consumo por tonelada de produto agrícola. Nesse o agro brasileiro deu um show um pouco maior, ocupando a 13ª posição, ficando atrás dos mesmos da relação por área acrescentando a Espanha, nossos vizinhos argentinos e o maior concorrente brasileiro no quesito de abastecimento do mercado mundial de alimentos e energia, os Estados Unidos.

A pesquisa é baseada no EIQ (Coeficiente de Impacto Ambiental), índice utilizado em todo o mundo para medir os riscos ambientais no uso de defensivos, aceito e utilizado tanto por parte das agências reguladoras como centros de pesquisa. Para fazer essa medição é preciso considerar uma série de características dos produtos e seus ingredientes ativos, como por exemplo: a dinâmica ambiental, toxicidade, características físico-químicas, persistência no ambiente, entre outros.

Com base nesse universo de informaçõessão apresentados números de risco em três grandes áreas: o trabalhador (quem está manipulando o produto), o risco para o consumidor e os riscos ambientais. 

Sendo assim, os resultados vão muito além de gerar o ranking entre nações, mas serve como termômetro para comparação entre produtos, para monitorar a eficiência do uso nas culturas ao longo do tempo (a primeira versão analisou os resultados de 2002 a 2015), além de uma infinidade de relatórios que poderão ser gerados ao aprofundar e cruzar essa quantidade gigantesca de dados.

Além da posição no ranking, o estudo ainda revelou outros dados interessantes. No caso da soja, têm situações que o EIQ brasileiro é inferior em relação somente ao EIQ de herbicidas norte-americano, sem considerar os fungicidas e inseticidas.

Ainda considerando o grão, o EIQ para trabalhador caiu de 2002 a 2015 cerca de 55%, quando o índice era próximo de 4 no início do século e treze anos depois apresentava ser menor que 2. No caso de consumidores a redução foi de 37%.
“Isso é maravilhoso, vai na contramão de toda a imagem que se cultua em relação ao uso de agroquímico. A opinião pública faz a imagem de que nós estamos usando mais, usando sem critério, estamos contaminando o ambiente, as pessoas, o trabalhador. Quando na verdade não é isso, estamos na direção contrária a isso”, desabafou o pesquisador.

Ao analisar os números referentes à cana-de-açúcar em relação às outas culturas brasileiras, ela fica com o título de oferecer o menor risco. Esse fator se deve ao fato do consumo de herbicida ser muito maior se comparado aos outros defensivos, o que embora dificulte ainda mais o planejamento de aplicação, em decorrência das questões de seletividade (é muito mais complicado matar o vegetal sem prejudicar a cultura, do que uma praga ou um fungo, já que são tipos de vidas diferentes), suas características agridem menos tanto quem o manipula, como o ambiente que é produzido e o alimento que é gerado.

Embora tenha apresentado a maior queda, mais de dez pontos, ao longo do período analisado, o EIQ de cana ambiental ainda é o mais alto, fechando 2015 pouco abaixo da casa dos 25 pontos. O índice para os trabalhadores e consumidores é extremamente inofensivo, sendo o primeiro pouco acima da casa dos 5 e o segundo pouco baixo disso.

Identificar razões para essa queda não foi o objetivo da pesquisa, pelo menos nesse momento inicial, mas algumas tendências com certeza influenciaram nesses números, como a evolução no uso de EPI no campo, o trabalho incessante da indústria em pesquisa e desenvolvimento para o lançamento de moléculas cada vez mais eficientes, a biotecnologia, a mecanização, a questão de manejo integrado, enfim todo o pacote tecnológico que o ambiente do agronegócio brasileiro nunca deixou de participar, seja ele desenvolvido aqui ou internacionalmente.

Essa cabeça aberta do campo nacional também justifica a eficiência no uso dos defensivos e dois grandes motivos explicam o que motivou o brasileiro ser tão bom. O primeiro é uma questão governamental. Enquanto a maioria das outras agriculturas do hemisfério norte são mimadas em relação a subsídios e infraestrutura que garante uma vida bem tranquila pós porteira, aqui a coisa é “hard”, governo nenhum passa a mão na cabeça de agricultor, aliásage como  um pai dissimulado que espanca e tira dinheiro do próprio salário do filho (políticas tributárias e código florestal) e enche o peito de orgulho ao falar para os amigos (outros países) que deu a educação correta para ele conseguir entrar em uma faculdade pública de medicina.

O segundo motivo é relacionado a fatores climáticos. Não seria demérito nenhum para a agricultura brasileira, se o resultado no ranking de risco no uso de agroquímicos não tivesse sido tão bom, isso porque por estar inserida em um clima tropical, pragas, doenças e plantas daninhas encontram um ambiente favorável em se tornar perenes e aumentar a sua população, ao contrário dos parceiros desenvolvidos do norte, onde ao atravessar um inverno rigoroso, tem sua terra praticamente livre para o plantio sem a necessidade de investir uma só gota em defensivos.

Embora o resultado da pesquisa seja um marco dentro do seu próprio objeto de estudo, ela própria precisa garantir a sua sustentabilidade. Nesse caso os aspectos econômicos se tornam essenciais para não somente a manutenção dos estudos, mas a sua modernização e isso envolvea evolução em hardwares e softwares que permitam a chegada de novas conclusões através do processamento mais eficiente de dados e também a aquisição de informações mais recentes. Com certeza o sonho de todos que conhecem o trabalho é ter a oportunidade de poder acessá-lo de maneira on-line e a partir daí extrair os relatórios necessários. Garantimos que pautas para a revista não iriam faltar.

Fornecedor sustentável

Uma ideia na cabeça e uma pasta embaixo do braço, narrar como a Assobari (Associação dos Fornecedores da Cana da Região de Bariri) se tornou a primeira entidade do setor a conquistar a certificação de sustentabilidade. Embora seja recente é nostálgico, pois remete a um tempo onde as pessoas empreendiam no setor, que depositavam recursos e suor para que ele evoluísse.

A história foi tão bem narrada pelo presidente da associação, Ulisses Fanton, que decidimos colocá-la da mesma forma que ele nos contou.
“A ideia da certificação nasceu pois havia um comentário geral sobre o sequestro de carbono. Todos falando sobre a venda dele e tudo mais, ouvindo isso eu pensei: - Vamos vender carbono.

Colocamos a pastinha em baixo do braço e fomos bater na porta de grandes empresas como a Petrobras. Até no Deutsche Bank nós fomos falando que éramos uma associação com pequenos fornecedores de cana. Ninguém dava nem conversa, até que um dia um cidadão perguntou se nós éramos certificados. E então um ponto de interrogação apareceu na nossa cabeça: - Mas o que é isso?
E então o cidadão falou: - Vocês precisam ser certificados senão não vão vender nada. Não tínhamos informação precisa nenhuma, só falávamos que éramos fornecedor de cana e que ela sequestrava carbono.

Sabendo que seria necessária a certificação para conseguirmos viabilizar o negócio, fomos atrás dela. Era meados de 2007, o Lula bombando com o etanol, era o nosso melhor amigo, então pensamos: - Se é por aí, vamos procurar alguém que certificou e pegar o projeto como base.

Simplesmente não tinha nada de cana. Na pecuária, o boi estava começando aquele negócio de brinco.Começamos a procurar em outras culturas e achamos uma certificação de acerola ali na região de Dracena-SP, com 12 produtores envolvidos. Eles se uniram para conseguir exportar o suco.Mais para frente um pouco, havia uma de limãotaiti, com 30 agricultores, era uma produção muito pequena, coisa de caixas. Logo entendi que nossa realidade era outra.
Aí ficamos em uma sinuca de bico, não sabendo o que fazer. Foi quando tivemos a ideia de ir no Sebrae de Bauru. Mostramos o nosso projeto e falamos que precisaríamos criar um protocolo próprio.

A associação conseguiu duas parceiras importantes na concretização do projeto, a Della Coletta Bioenergia (usina localizada em Bariri) e a OIA (Organização Internacional Agropecuária), empresa certificadora que nos ajudou com a sua experiência para o desenvolvimento do protocolo. Na verdade, eles deram apenas um norte de como executar o serviço para a nossa realidade.

Com o trabalho em conjunto demoramos um ano e meio para finalizar o protocolo, que contém 311 itens focando a parte social, agronômica e ambiental.

A respeito da viabilidade econômica foi fácil resolver, pois fizemos um acordo de cavalheiros com a usina, onde ficou combinado que se ela ganhasse algo a mais devido a certificação o valor seria distribuído com os fornecedores.

Não sei se ela chegou a ganhar, acho que não, mas ao longo de 4 anos foi paga uma bonificação que começou com R$ 0,90 por tonelada, depois passou a R$ 1,00, R$ 1,10 e R$ 1,15. Isso chegou a representar para alguns fornecedores um acréscimo de 5% no total a ser recebido.

Vendo que havia retorno, mais fornecedores passaram a ter interesse e então a associação passou a realizar o serviço de consultoria para realização do projeto. Para entender a importância da participação da Assobari, o Sebrae havia mensurado um tempo mínimo de 3 anos para que 25 dos 50 associados que haviam começado o programa conseguissem a certificação. Em um ano e meio já estávamos com 75% desse grupo com seu canavial certificado.

Todo esse trabalho fez muito bem para o desenvolvimento de nossa entidade. Por ser nova, nos obrigaram a desenvolver uma complexa gestão de documentos. Hoje temos desde a certidão de nascimento dos filhos do nosso fornecedor, todos os documentos da família, as escrituras, contrato com a usina, mapas, notas fiscais do diesel e outros insumos comprados, enfim, uma infinidade de documentos.

Com o passar do tempo aprendemos como funciona esse mercado e entendemos que sozinhos, sem a usina, nossa certificação pouco adiantava, isso porque nesse meio existe um negócio que se chama cadeia de custódia, onde não adianta o agricultor conseguir o selo se a indústria não tiver.

No meio desse processo apareceu o selo Bonsucro, que consiste na análise de sustentabilidade das usinas. Grandes empresas mundiais como Coca-Cola e Unilever (dona da marca Kibon), Bacardi, entre outras o exigem como garantia que toda a cadeia onde o produto está inserido respeita os princípios sustentáveis.

O grande problema é que a Bonsucro era uma empresa de Londres e no princípio eles não acreditavam que existia a presença de fornecedores na cadeia produtiva do açúcar. Na visão deles os canaviais eram todos das unidades industriais.
Foi uma luta até conseguir mostrar para eles como funcionava a figura do fornecedor de cana. Chegamos lá, explicamos toda a dinâmica do negócio -imagina a hora que chegamos no Consecana -, e assim demoramos um bom tempo até que conseguimos o reconhecimento.

Aí a crise esfriou tudo. A usina entrou em séria dificuldade financeira com problemas para pagar, a bonificação sumiu e então o programa estacionou. É válido lembrar que as únicas baixas foram relacionadas à fornecedores que abandonaram o negócio da cana mantendo o número de cerca de 60 até hoje”.

A história ainda produziu fatos que atraíram a Orplana e todas as associações parceiras, fazendo com que esteja em fase de finalização um planejamento em parceira com a ONG Solidariedade para alcançar a casa dos 5 mil produtores certificados em 10 anos.

Essa meta está diretamente ligada com o projeto da revisão do Consecana, que consiste em premiar o fornecedor através do cumprimento de metas de eficiência. Dentre as formas de ampliar os ganhos a certificação está incluída.

Porém os verdadeiros frutos dos precursores dessa empreitada, veio de um lugar que ninguém imaginava: a redução de custos. Como atender a todos os itens do protocolo exige uma adaptação constante no método de como trabalhar e também uma minuciosa auditoria, que no caso da Assobari é feita pela própria associação, o controle de custos surgiu de maneira natural.

Hoje nós controlamos o quanto cada produtor consome desde o óleo diesel até os defensivos agrícolas. Com isso temos condição de saber se há gargalos na operação de cada participante e informá-los antes que o prejuízo fique maior”.

Os números não mentem. A cana certificada apresenta um ATR maior, 5% a mais na produção, custo menor e tem 18 meses a mais em seu ciclo em relação as não certificadas”.

Embora os números de rentabilidade sejam interessantes e estimulantes, Fanton analisa que o grande mérito do projeto foi o de provocar os fornecedores a sair de suas zonas de conforto e buscar a melhoria da qualidade de sua lavoura.

O bêbado e o equilibrista

A embriaguez causa bipolaridade nas pessoas. No caso sucroenergético podemos entender esse antagonismo dos últimos anos entre o total abandono governamental aliado com uma gigantesca pressão da opinião pública em busca de metas cada vez mais ousadas nos dois pilares da sustentabilidade que a interessavam, ou lhe era conveniente: a reponsabilidade social e a ambiental.

De uma maneira que ainda economista nenhum consegue explicar, o setor se fechou e conseguiu atingir o equilíbrio se mantendo em pé economicamente falando.

Dançamos durante um bom período na corda bamba, de sombrinhas. Muitos não conseguiram dar o passo adiante na linha e se machucaram, ou tiveram que sair do mercado. Porém muito além a esperança, mas também a persistência e obstinação equilibrista aprendeu e tudo indica que a partir de agora, o show vai começar.